Bruno Mendonça em Frestas: Trienal de Artes

 

Entrevista com Bruno Mendonça à crítica e pesquisadora Paola Fabres para o Ponto Digital, plataforma integrante da Trienal de Artes do SESC “Frestas – Entre Pós-Verdades e Acontecimentos”. A conversa partiu de sua performance “Onde está o que se o que está em porque” realizada no Sesc Sorocaba no dia 21 de outubro de 2017.

 

Paola Fabres: Teu trabalho tem transitado por diferentes circuitos, penetrando em espaços institucionais e alternativos. Em que medida esses diferentes espaços afetam a concepção e a construção do trabalho (ou também na própria relação que se estabelece com o público)? Que questões entraram em jogo ao desenhar esse projeto performático para o Frestas?

Bruno Mendonça: Bom, acho que é a primeira vez que tenho oportunidade de falar sobre meu trabalho dessa forma…

Esse trânsito por diferentes circuitos acredito que tenha se dado de uma forma muito natural, porque minha primeira formação não foi em Artes Visuais mas sim em Comunicação. No começo da faculdade, bem no começo mesmo, no primeiro semestre, eu passei num processo seletivo no MAM-SP para trabalhar na produção do Departamento Educativo. Neste momento, no próprio curso de Comunicação, eu já produzia algumas coisas, mais voltado à arte impressa, porque eu havia feito cursos técnicos nesta área antes da graduação. Eu produzia colagem, experimentações gráficas, muitos zines por conta da minha relação com a música independente da época que se utilizava desse dispositivo, além de escrever muito, sempre escrevi. A relação entre a palavra e a imagem sempre me interessou. Mas foi no MAM que comecei a adentrar esse sistema da arte. Por um lado foi bom, mas por outro me gerou uma grande crise, pois passei 4 anos pensando em mudar de curso, mas como eu era bolsista e fazia Iniciação Científica, acabei ficando… Aliás, a minha pesquisa de Iniciação Científica já tinha se voltado à relação entre palavra e imagem. Mas enfim, no contexto do MAM eu conheci muita gente…artistas, curadores, produtores e comecei a fazer trabalhos paralelos ao museu, como assistências para artistas e curadores, eu prestava trabalho para galerias, etc.

Demorou um tempo para eu entender a dinâmica do sistema das artes, mesmo estando profissionalmente imerso nele. Eu não era visto como artista ainda. Durante esse tempo eu mostrava meu trabalho em lugares alternativos, independentes ou que muitas vezes eram mais do establishment, não necessariamente das artes visuais, mas espaços voltados a música, moda, literatura. Foi depois da graduação que eu comecei a fazer cursos de extensão e especialização em Artes e que comecei a entender melhor meu trabalho e quais caminhos eram possíveis dentro desse sistema, desde salões, editais, espaços institucionais, até galerias… Também fui conhecendo os espaços independentes que foram muito importantes para a minha trajetória.

A questão é que toda esse rede de pessoas e lugares se mantém até hoje. Eu nunca hierarquizei nada e acho que, como meu trabalho sempre teve uma interface mais conceitual e foi cada vez mais caminhando para isso, nunca tive pretensões específicas, muito menos com a parte comercial, então, para mim, realizar uma performance no SESC ou num evento de música num espaço bem alternativo é a mesma coisa, o trabalho é o mesmo. Acho que por isso ele transita tanto por diferentes espaços. Encaro todos os “públicos” da mesma forma, embora respostas diferentes venham desses encontros. Claro que questões de infraestrutura e produção em termos gerais mudam, mas não que eu faça um grande espetáculo porque estou em um SESC que me disponibilize um palco italiano, enquanto que em um evento de garagem eu vá fazer outro tipo de trabalho. Como eu disse, o trabalho será o mesmo e ele é assim, simples. Na verdade, só preciso do microfone e pronto. Isso vem de um repertório punk, ou pós-punk, de ser direto.

Aliás, é importante falar num retrospecto sobre a prática da performance. A consciência conceitual sobre performance, no sentido de eu saber o que estava fazendo, ou pelo menos querendo fazer, veio do meu aprofundamento posterior no campo das Artes Visuais, ou seja, depois da graduação. Foi aí que fui conhecendo estilos, metodologias e tipologias da performance. Artistas importantes para mim como Laurie Anderson, Sue Tompkins, entre outros, surgiram aí e esses artistas criavam uma conexão para mim com background anterior, pois eles traziam em seus trabalhos elementos que me interessavam da música e da literatura. A descoberta do spoken word, abriu um guarda-chuva gigante e eu fui mergulhando nessas referências. No fundo acabei criando um trabalho de performance onde eu pude relacionar todas essas frentes que me interessavam.

Como hoje afirmo que todo o meu trabalho é texto, seja qual for a maneira que este se materialize, eu olho para trás e vejo que tudo foi um processo, um processo que faz sentido. Agora, sobre o que este texto fala? Acho que, na verdade, meu trabalho sempre falou em termos gerais de possíveis relações entre economia e subjetividade, e claro que a política entra aí nesse miolo. As abordagens e os recortes mudam, mas sempre vejo que no final acabo falando sobre questões econômicas. Aliás, até isso acredito que faça sentido na minha trajetória, o fato de eu ter atuado profissionalmente no mercado de arte não só como artista, mas ocupando cargos e funções que me possibilitaram ver por dentro da caixa preta. Acredito que me utilizo disso não apenas como um dos assuntos no meu trabalho, mas também como estratégia, consciência e potência…

PF: Em termos formais, é interessante perceber alguns aspectos presentes na tua ação performática realizada para a Trienal das Artes do Sesc Sorocaba. O eco reverbera a tua mensagem como numa vontade de ressonância, o idioma inglês dialoga com o grande sistema econômico o qual se questiona e os fragmentos de pensamento que vão aparecendo, falados e musicalizados, entram em sintonia com a tua própria multiplicidade como artista. Podemos perceber também falas pessoais, intimistas, que enfrentam quase que sem proporcionalidade à estrutura capitalista em pauta, cuja escala é tão maior. De que forma você enxerga a potência dessas individualidades? 

BM: Adorei essa pergunta. Que interessante que você percebeu essas coisas… Pois é, o eco e alguns efeitos de voz muitas vezes tem essa proposta de ressoar mesmo, ecoar a mensagem. Não é sempre que me utilizo disso, porque às vezes o cru também é interessante sonoramente falando. Mas eu pensei, sim, em utilizar esses tipos de delay e eco para a performance na Trienal porque, para mim, conceitualmente, fazia sentido por conta da materialidade dos textos que eu preparei para essa ação. Além disso, era uma forma de me relacionar com todas as camadas presentes na exposição, percebidas no espaço expositivo, no seu contexto ou nas relações mais conceituais e abstratas.

Sobre o inglês… Eu já fui muito criticado por utilizar o inglês nas performances. O uso dessa língua tem vários motivos. Primeiro porque minha mãe é linguista e é especializada em inglês, principalmente no estudo do uso da língua em contextos políticos e econômicos, então eu tenho uma relação com o idioma de uma forma quase materna. O outro motivo é que sempre que utilizo esta língua ativo um repertório muito pessoal e afetivo de referências que vem da música, do cinema, da literatura e por aí vai… Ao mesmo tempo, tem também esse uso crítico que você comenta. A mesma crítica que recebo de algumas pessoas pelo uso do inglês por conta de uma “colonização 2.0” e todas as problemáticas envolvidas nisso é a mesma crítica que faço a partir do uso da língua. É a crítica da crítica da crítica! É normal, qualquer trabalho está sujeito a isso. Mas às vezes acho que o uso da língua como crítica não é percebido como você observou.

Agora, sobre o caráter de fragmentação do trabalho a partir dessas diferentes formas de vocalização, isso tem a ver com a questão dessa multiplicidade enquanto indivíduo, por vezes um indivíduo quase esquizo mesmo… Essa postura cambiante me interessa, algo que fica entre a palestra, o manifesto, o poema, a canção, o show. Os textos, ao serem escritos, já são pensados dessa forma. Esses diversos personagens, papéis e indivíduos que os diferentes textos e suas respectivas estruturas e vocalizações suscitam me interessam muito. Ou seja, me interessa quando a performance se configura quase como uma “palestra”, evocando a figura do professor e logo do crítico, do curador – que são estados que eu habito de vez em quando. Em seguida, vem também o artista, mais melancólico, debochado, muitas vezes nervoso, que é quando me sinto mais nu de fato, porém posso botar a armadura epistemológica em segundos… O trabalho é assim, tem essas diferentes temperaturas.

Agora para finalizar respondendo a última parte da pergunta, assim como falei anteriormente, sim, tudo gira em torno dessa relação entre macro e micropolítica e em torno do estratagema econômico como um fator de afetação do corpo, do indivíduo e de sua subjetividade.

PF: Você comenta que reconhece a ocorrência da fragmentação dos papéis – no caso do artista – como uma decorrência do capitalismo e da forma como ele formata nossos direitos e identidades. Estou bastante de acordo. Mas há também uma questão referente ao próprio campo da arte que demanda uma multiplicidade de seus agentes por conta da precarização profissional. Como neutralizar esse sintoma de carências e fazer com que a multiplicidade torne-se a escolha e não a necessidade?

BM: Bom, aí acho que teremos que analisar por contexto. Se pensarmos no Brasil isso é extremamente complexo. Aqui essa precarização que você fala, e que é real, realmente cobra dos artistas uma fragmentação de papéis e uma multiplicidade enquanto agentes, muito mais por uma questão de necessidade do que por escolha. Acho que nesse sentido meu trabalho se relaciona muito com a nossa realidade local. Embora, se analisarmos contextos com processos econômicos, políticos, sociais e culturais parecidos com o nosso, como é o caso da América Latina e Central, do Leste Europeu, entre outros, veremos que acontece o mesmo. Neste caso essa fragmentação de papéis e essa multiplicidade do artista enquanto agente como escolha é totalmente diferente e possível em países que tem uma outra realidade. Inclusive isso é a temática de alguns artistas, principalmente deste eixo norte-americano ou centro-europeu, que se utilizam dessa escolha de modus operandi não mais como uma forma de sobrevivência mas como um dado conceitual. Aqui no Brasil, por exemplo, as duas coisas andam juntas, sobrevivência e conceito, ou seja, ação e discurso.

PF: A ideia de Ricardo Basbaum sobre o “artista-etc” traz como definição “o artista que questiona a natureza e função do seu papel”. Essa não deveria ser uma atenção de todo artista? Como tu achas que a utilização desse conceito pode vir a ajudar na construção de vocabulário voltado ao campo sem utilizá-lo como categoria de valor?

BM: Bom, a teoria do Basbaum e todos os textos que envolvem essa reflexão foram de extrema importância para mim. Eu continuo lendo, relendo, atualizando, reconectando com outras teorias, bibliografias recentes, enfim… Ainda bem que ele resolveu fazer um manual, assim todos os artistas e outros podem usar isso como ferramenta! Eu sempre entendi esse conceito como ferramenta, mas agora está dado. “O artista que questiona a natureza e função do seu papel”… claro que isso deveria ser uma posição geral, mas de fato não é!

As artes visuais é uma das classes artísticas mais acomodadas que eu vejo e acho que isso se dá por várias razões, uma delas talvez seja o fato de que a relação entre investimento público e privado neste setor é muito estranha. Além disso, nossa classe movimenta um sistema comercial específico, o que resulta em um nicho diferenciado se pensarmos em relação ao pessoal do teatro, da dança, etc. Acho que esse namoro com uma ideia de commodity de uma forma mais direta gera consequentemente uma postura mais frouxa por parte de alguns artistas, menos reflexiva, pois muitos se sentem protegidos por determinadas estruturas desse sistema, o que é um grande engano. Isso é muito comum e às vezes acontece de forma inconsciente… Na verdade essa postura muitas vezes despolitizada e menos autocrítica do setor faz com que sejamos um grupo desunido, muito individualizado, com pautas que não se cruzam e muitas vezes com realidades tão distintas que são abissais.

Agora sobre a questão do “artista-etc” como categoria de valor, não sei se entendi isso. O que vem acontecendo é que artistas que tem atuações cheias de hífen em seus currículos tem de fato ganhado mais destaque principalmente no circuito institucional, ou seja, artistas-ativistas, artistas-pesquisadores, artistas-educadores, artistas-designers e por aí vai. Essas atuações transdisciplinares e múltiplas tem tido um determinado lugar. Mas é importante prestar atenção inclusive sobre este “lugar” conquistado. Isso vem como decorrência de uma série de processos. Como o atual sistema econômico é extremamente veloz e rapidamente copta tudo e joga para dentro de sua máquina, é preciso então prestar atenção se esse “tipo de artista”, “o etc”, já virou uma categoria, se isso já é recorrente ou, pior, se isso já virou uma categoria de valor. Nesse caso, talvez tenhamos um problema maior ainda. Eu tenho pensado muito sobre essas coisas, inclusive por conta da atenção que ganhei com o meu trabalho nos últimos anos… Ao mesmo tempo que tenho me utilizado disso a meu favor, tenho prestado atenção para não ser uma espécie de toupeira, é melhor ser um ornitorrinco…