De Frestas para Sorocaba

160 trabalhos. 60 artistas. 13 países. 3.200 metros quadrados de espaço expositivo. 25 locais com obras na cidade. Fazer parte da produção de uma grande exposição de arte contemporânea como a 2ª edição de Frestas Trienal de Artes, acompanhando obras pensadas para esta edição e para cidade de Sorocaba, é estar em contato com artistas que investigam diferentes linguagens e estéticas. É também perceber/sentir a importância de cada um na formação deste corpus de obras.

Assim, por exemplo, estar junto à artista Maria Thereza Alves é acompanhar o desenvolvimento de um processo criativo repleto de generosidade. Seu plano inicial era realizar um único encontro com alunos indígenas do campus da UFSCar Sorocaba para que criassem conteúdos como parte constituinte de seu trabalho na Trienal. Percebendo neste primeiro contato que estes estudantes eram, em sua maioria, recém chegados na vida acadêmica e mesmo no meio urbano, se propôs a realizar então um workshop de três dias, em que apresentou artistas indígenas aos estudantes, ativando neste período um espaço de troca, convívio e discussão em arte contemporânea. O resultado está nos vídeos feitos pelos estudantes que integram Um Vazio Pleno, 2017 – no edifício central da unidade do Sesc.

Outro trabalho pensado sobre o contexto de Sorocaba é o do artista Nunca. Nesse caso, a obra inicialmente concebida ganha outros rumos, como se a própria cidade impusesse suas vontades de representação. Ao saber que não havia nenhum monumento histórico dedicado aos primeiros habitantes de Sorocaba, realiza (em sintonia não planejada com o trabalho de Maria Thereza Alves) o mural Fundadores, uma homenagem aos povos indígenas e um marco, instalado na praça central da cidade.

Já a obra Arqueologia de um sorriso, do artista cubano Reynier Leyva Novo, que havia sido pensada para acontecer em um único local, na Pastoral do Menor no bairro do Habiteto, se estendeu também pelo espaço expositivo do Sesc Sorocaba. A ideia da obra é convidar pessoas a trocarem suas escovas de dentes por outras novas, contribuindo para a construção de uma arqueologia de escovas usadas. A inclusão de um outro ponto de troca para as escovas possibilita um contraponto entre localidades. Assim, o trabalho em si traz à tona – a partir de uma instalação que apresenta o retrato das pessoas envolvidas e suas respectivas escovas de dente – dois territórios da cidade que trazem consigo realidades sociais, culturais e econômicas distintas.

Costumo dizer em sala de aula que o melhor e mais honesto público de uma exposição são as crianças. Não formatadas por anos de educação formal, como nós adultos, sentem com o corpo tudo aquilo que se apresenta como representação e traduzem o que percebem. No caso do Frestas, pude perceber um pouco disso no comentário do meu filho, Érico de 5 anos. Após percorrer o espaço expositivo me presenteou com a seguinte frase: “mãe, agora aqui dentro está vivo, né?”. Sim, está vivo, a organicidade desta trienal é o reflexo de um percurso onde as trocas e alinhamentos entre curadoria, instituição realizadora, produção, instituições parceiras e claro, os artistas e suas obras, foram sendo tecidas com generosidade e escuta entre muitas (e hábeis) mãos.

Seguimos “frestando”, como a equipe gosta de dizer, nos esgueirando por entre os interstícios destes tempos tão conturbados, espalhando aqui e ali signos que podem ser de resistências, belezas, choques, polêmicas, para que o Érico e outros tantos visitantes possam ter contato com a experiência de descobrir a potência da arte.

 

Alita Mariah