Frestas Trienal 2017:
Entre Pós-Verdades e Acontecimentos

Daniela Labra – Curadora Geral

A arte fura.

Esta edição de Frestas associa o nome do evento à noção de interstício: um espaço-entre cheio de sensibilidade e potência criativa transformadora, onde a ambiguidade e a indefinição de conceitos, formas e modelos é explorada de modo poético e crítico. Enquanto o existir nas cidades parece se reduzir a dígitos numéricos em cenários homogêneos de shoppings, conglomerados e condomínios, apostamos aqui na máxima “criar é resistir”, compreendendo a prática da arte e sua fruição como singulares vias propositivas libertadoras do contexto de exaltação da produtividade, competitividade, vigilância e espetacularização da vida.

Considerando que a natureza regrada e acadêmica da arte ruiu há tempos, refletimos sobre a impossibilidade de definir Verdade na obra contemporânea, e também discutimos as narrativas políticas sustentadas por memes e populismos midiáticos amparados em discursos morais e dogmáticos, que ganham força e constituem parte do contexto que a própria arte espelha e reage.

O título da mostra veio antes do termo Pós-Verdade ser indicado como o mais comentado na internet em 2016. O termo não é novo e seu germe já aparece em Verdade e Política (1967), de Hannah Arendt. Recentemente, ele se tornou protagonista no comentário político internacional, impulsionado pelo afã, de grandes publicações jornalísticas em disseminar, pela rede, opiniões como fatos consistentes que rapidamente ganham status de verdades.

Já a ideia de Acontecimento refere-se à natureza de uma Trienal, e a sua definição na antropologia e filosofia: Acontecimentos, sempre temidos e esperados, como um evento climático, militar ou político, que trazem o risco de um corte irreversível com o passado, marcando transformações profundas no curso histórico e social de comunidades.
Participam da mostra artistas de diferentes nacionalidades, gerações e linguagens, cujas obras trazem questões como ambiguidades formais; transdisciplinaridade; temporalidade; performatividade; gênero e sexualidade; crítica social e artisticidade. Mais da metade dos projetos são comissionados e inéditos, e ocuparão o edifício da Unidade além de vias públicas, outras instituições, lojas e ruínas históricas, criando circuitos de experiências estéticas instigantes entre o Sesc e a cidade.

Curadora geral

Daniela Labra é curadora independente e crítica de arte. Doutora em História e Crítica de Arte pelo PPGAV/EBA/UFRJ. Desenvolve projetos de curadoria, escrita crítica e pesquisa com ênfase na produção contemporânea. Atua principalmente nos temas: arte brasileira moderna e contemporânea, história e produção estética do Sul global, e performance. Reside e trabalha entre Rio de Janeiro e Berlim.

Curador assistente

Yudi Rafael é pesquisador e curador, doutorando em estudos culturais pela Columbia University, onde atualmente desenvolve pesquisa sobre diásporas asiáticas e identidade cultural no Brasil e Américas. Foi co-curador do projeto Residência Artística Cambridge (2016), na Ocupação Hotel Cambridge, e realizou, nos últimos anos, diversas curadorias em São Paulo, tendo atuado em espaços como Ateliê397, Oficina Cultural Oswald de Andrade e Sesc Belenzinho.