Curadoria editorial: circuitos Frestas

Ana Maria Maia e Júlia Ayerbe

Nesta segunda edição de Frestas, a curadoria editorial ativou dois circuitos discursivos que tangenciam uma exposição de arte contemporânea. Para fora dos seus domínios, mas com potencial para anunciá-la antes mesmo de sua abertura e criar uma comunidade de interesse, a internet foi o primeiro desses circuitos. Como uma decorrência natural da realização da mostra, imbuído da função de registro e reflexão para a posteridade, o catálogo impresso foi o segundo circuito.

Circuito 1: internet

Memes são conteúdos de imagem, som e texto publicados na internet e que circulam conforme a rede de interesse e compartilhamento que suscitam, podendo, se bem sucedidos, viralizarem à revelia do controle do seu autor. Interessou à curadoria editorial investigar esta linguagem tão central na dinâmica de comunicação atual, utilizando-a para intrigar e instigar o público do meio digital antes da abertura de Frestas.

Seis artistas e dois coletivos foram convidados a elaborar intervenções em diferentes redes sociais: a dupla Angélica Freitas e Juliana Perdigão e a Escola da Floresta no Facebook; Bruno Mendonça no Instagram, Facebook, entre outros; Deyson Gilbert no Whatsapp; Gala Berger na Wikipedia; Guerrilla Girls em um site próprio e Ricardo Càstro no Instagram e no Google Maps. Por meio da hashtag #frestas2017, as propostas foram indexadas em um pequeno arquivo virtual, embora sua circulação tenha permanecido sujeita a um fluxo de trocas, desaparecimento e viralização definidos pelos usuários e algoritmos da rede.

Circuito 2: livro

Projetos editoriais de exposições costumam partir da missão de guardar a memória do que se passou no período em que a mostra estava aberta ao público. Mais do que isso, podem contemplar conteúdos inéditos e experimentações de linguagem editorial e gráfica relacionados aos conceitos da mostra. Para articular para o futuro leitor parte do que foi a segunda edição da Trienal, a curadoria editorial concebeu um livro com o intuito de registrar, refletir e experimentar Frestas.

REGISTRO

Os caminhos criados pela curadoria no espaço norteiam a paginação, de modo a emular a experiência expositiva. O primeiro elemento narrativo deste espaço é o ensaio fotográfico de Everton Ballardin, que contempla de planos abertos a detalhes da mostra e contextualiza sequências de verbetes introdutórios às obras das e dos artistas participantes e seus respectivos trabalhos. Além do texto da curadoria geral, memoriais da equipe contribuem para o entendimento do raciocínio coletivo e interdisciplinar do qual nasce uma mostra de arte contemporânea, oferecendo subsídios para a formação de um público e de um circuito profissional das artes.

REFLEXÃO

O título permanente da Trienal do Sesc, Frestas, é um conceito âncora para esta segunda edição, que o investiga e toma como título. Para tentar defini-lo e problematizá-lo, realizamos uma roda de conversa gravada em abril de 2017, em São Paulo, com cinco profissionais de diferentes áreas. Pós-verdades e acontecimentos, os dois outros conceitos guias desta mostra, foram trabalhados no textos de Roberto Winter e Paula Sibilia. De forma sintomática, em se tratando do tema que lhe foi proposto, Winter respondeu com um diálogo ficcional, enquanto Sibilia refletiu em seu ensaio sobre uma “fusão entre o espetáculo e o controle”, que faz com que mais do que mostrar algo, seja necessário “mostrar-se”.

FRESTAS DAS FRESTAS

Ao invés de ser refilada em três faces, a encadernação do livro manteve sua parte de baixo sem corte. Isso criou espaços internos entre as páginas, frestas da estrutura editorial. Usando este recurso, as e os artistas da Trienal puderam intervir livremente no avesso dos verbetes dedicados às suas obras. “Frestas das frestas” tornou-se um convite à autoedição, um campo de experimentos afeito a buscas, abstenções, eventuais desacordos e ao paralelismo entre discursos institucionais e pessoais. A estrutura da página não refilada apresenta uma dificuldade em acessar esses conteúdos, o que convoca os leitores a comprometer-se de diferentes maneiras: alguns podem priorizar um uso otimizado do livro, sem abrir ou abrindo apenas esporadicamente as páginas internas. Outros podem dedicar-se a abri-las, até rasgar a face não refilada e assim garantir uma visualização completa do que ali se imprimiu.

Ana MariaAna Maria Maia é pesquisadora, curadora e professora de arte contemporânea, nascida no Recife e radicada desde 2009 em São Paulo. Faz doutorado em Teoria e Crítica de Arte na Universidade de São Paulo. Foi curadora adjunta do 33º Panorama de Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo (2013) e curadora do Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural (2011-2). É autora do livro Arte-veículo: intervenções na mídia de massa brasileira (Editora Aplicação, 2016).

juliaayerbeJúlia Ayerbe é bacharel em Ciências Sociais pela PUC-SP. De 2010 a 2016 foi editora sênior da Pinacoteca de São Paulo, onde esteve a cargo de mais de sessenta publicações. Desde 2013 é gestora de Edições Aurora / Publication Studio SP, editora independente com foco em livros-trabalho e teoria sobre arte e política. Participou de diferentes projetos curatoriais como Elefante branco com paninho em cima e Cidade Queer. Atualmente é mestranda em História da arte pela Universidad Autónoma de Madrid, Universidad Complutense e o Museo Reina Sofía.