Pedagogia canibal ou aprender a resistir como aprender a perguntar

Fábio Tremonte

“Ninguém pode antecipar a potência de um encontro.” [Comitê Invisível]

O projeto de curadoria educativa tem como premissa inicial possibilitar o surgimento de espaços de encontro para os diversos públicos que frequentam o Sesc. Para que isso se efetive, o programa lança mão de estratégias variadas resvaladas por ações educativas e artísticas e seus possíveis atravessamentos e deslocamentos, que podem mobilizar desde o encontro entre educador, grupo escolar e exposição até atividades  específicas dotadas de potência criativa.

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Como encontro entendemos o ato de chegar um diante do outro ou uns diante dos outros, uma junção de pessoas que se movem em vários sentidos ou se dirigem para o mesmo ponto, embate, encontrão, confluência, conjuntura, lance.

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Os encontros partem do princípio de que a educação se dá através de trocas de afeto. Como lembra a artista e educadora Mônica Hoff, a partir das teorias pedagógicas de Paulo Freire sobre alfabetização: “o processo de produção de conhecimento se dá efetivamente quando nos toca afetivamente, despertando dessa forma processos emancipados de relação com o mundo, uma vez que o que nos toca primeiro como indivíduos, de uma maneira singular e, muitas vezes, irregular.”¹

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Quando dois corpos distintos posicionam-se frente a frente, cada um vem carregado do que se é. O outro é acessado a partir de nossas experiências, pensamentos, convicções, etc. Entretanto há uma brecha, um espaço, uma fresta que se estabelece, separa e une. Essa fresta é o espaço de encontro, no qual um fluxo de informações e trocas vai se formar, possibilitando o surgimento de diálogos, embates, conflitos. Enfim, possibilidades diversas de aprendizagem. Denomino essa prática conduzida pela expectativa do encontro de Pedagogia canibal. Esse programa educativo está justamente empenhado em descobrir o que pode surgir e se potencializar a partir desses momentos.

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Nesse processo, a figura do educador reivindica o lugar de quem possibilita a troca, o olho no olho, o espaço entre. ”Em se tratando dos intermediários, não há mistério algum, pois o que entra prediz perfeitamente o que sai: não estará no efeito nada que já não tenha estado na causa. […] Para os mediadores, a situação é outra: as causas não pressupõem os efeitos porque propiciam apenas ocasiões, circunstâncias e precedentes. Em resultado, muitas coisas estranhas podem surgir de permeio”.²

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Busco aqui imaginar situações específicas dentro dos espaços destinados ao processo de aprendizagem a partir da cultura e da arte, pensando nos vínculos que podem se constituir entre instituição, curadores, artistas, educadores, alunos, funcionários e a nuance mais abrangente de público que frequenta esses lugares.
Essas situações surgem e são assentadas em algumas proposições de encontro que, inicialmente dadas, podem e devem ser transformadas, esgarçadas, dobradas, esticadas, retorcidas a partir do momento que os educadores entrem em contato com elas e passem a se perceber como autores, que eles encontrem sua própria voz a partir de suas vivências e aprendizados e sejam capazes de:

. investigar a recepção da obra de arte através de uma atitude performática e convidar o público à participação

. transformar processos pedagógicos em processos artísticos e vice-versa, a partir da colaboração e do diálogo

. entrelaçar conteúdos surgidos nas conversas com o público

. propor situações nas quais o público assuma um papel ativo e propositivo. criar espaços para que o público faça conexões entre suas experiências e as dos artistas

. proporcionar espaços de aprendizado criativos e imaginativos

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Como componente da atuação do educador está embaralhar as concepções de arte e educação, misturar o não saber ao aprender. “Na verdade, estou interessado na pedagogia desde que fui estudante e vítima, particularmente no campo descuidado da pedagogia aplicada à arte. A pedagogia da arte é importante para mim porque não vejo muita diferença entre arte e educação, pelo menos não dentro das definições que dou a ambas. Dada a divisão em disciplinas nas quais fragmentamos o conhecimento, creio que a ordem em que menciono arte primeiro e educação depois tem certa importância. De acordo com essa ordem abre-se a possibilidade para que uma inclua a outra e tenhamos que escolher qual queremos que absorva qual.”³

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Algumas ações previstas para criar um curso por onde o público possa explorar as brechas surgidas nos encontros:

Sesc Escola                                                                                              

Partindo do projeto que já existe e contempla as escolas da região de Sorocaba, artistas e educadores são convidados a pensar atividades no cotidiano escolar como formas de integrar as propostas artísticas e educativas da Trienal.

Publicação educativa                                                                                    

O material educativo, pensado e produzido especialmente para professores trabalharem com seus alunos em sala de aula, parte também das possibilidade de aprender a partir do encontro com o outro e da exploração dos interstícios surgidos na reflexão sobre o espaço escolar e na vivência de alunos e professores.

Rádio

Espaço criado para difundir registros das ações propostas pela curadoria educativa através de entrevistas, músicas e outras experimentações sonoras.

Espaço educativo                                                                                

Configura-se como um espaço de criação e imaginação, de produção em artes visuais, mas incluo na programa de oficinas e cursos outras possibilidades: rodas de conversa, momentos de leitura e escrita, produção gráfica, caminhadas, culinária, experiências sonoras.Este espaço é composto por três ambientes:

  • cozinha

Espaço para encontros no qual a culinária entra como troca de saberes e a forma de se estabelecer uma possível relação afetiva com o ato de comer;

  • gráfica e biblioteca

Sala  multiuso com redes e esteiras para o público descansar, pesquisar, desacelerar e até criar um ambiente de silêncio. Composto por um computador com uma biblioteca de física e outra de arquivos em formato PDF, com material de estudo e formação dos educadores, assim como as pesquisas e registro do dia-a-dia deles e materiais sobre os artistas da exposição e outros assuntos do universo da exposição. Esse conteúdo fica disponível em computadores conectados a impressoras. Uma máquina de xerox. Materiais para estêncil. Essa gráfica pode ser utilizada nas visitas com escolas, mas, principalmente, com o público espontâneo que visita a exposição, que pode interessar-se pelos processos de trabalho dos artistas e dos educadores e querer levar algo para ler ou deixar algo para esse espaço.

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“Para aprender, é necessário desacelerar. Sair do ritmo urbano e se colocar, como todo o corpo, à mercê de outras lógicas do tempo, dos intercâmbios pessoais e afetivos, do que ocorre como possibilidade quando um plano pré-desenhado falhar ou, afortunadamente, não se cumprir como previsto.”4

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“É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir. (…) Resistir: quanto em resistir é aceitar impávido a desgraça, transigir com a destruição, cotidiana, tolerar a ruína dos próximos? Resistir será aguentar em pé a ruínas dos outros, e até quando, até que as pernas próprias desabem? Resistir será lutar apesar da óbvia derrota, gritar apesar da rouquidão voz, agir apesar da rouquidão da vontade? É preciso aprender a resistir, mas resistir nunca será se entregar a uma sorte já lançada, nunca será se curvar a um futuro inevitável. Quanto do aprender a resistir não será aprender a perguntar-se?”5

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Resistência é ainda hoje manter um programa educativo em uma instituição cultural, na qual grande parte do seu público é formado de estudantes e professores, com programas diversificados que atuam numa espécie de intercâmbio, onde a escola recebe o artista, a instituição recebe a escola, que também leva para a escola proposições de imaginar outras possíveis escolas a partir de assuntos e conceitos abordados na exposição.

Agindo em consonância com as possibilidades de experimentação na arte, a educação pode ter um poder transformador, talvez não exatamente sobre a sociedade de maneira permanente, mas sobre o sujeito político que é o aluno, que é o professor.

Em pleno ano de 2017, em que leis de educação são alteradas sem consulta à comunidade escolar, orçamento da cultura são congelados, cortados, extintos, ver que estudantes de todo o Brasil não se contentam em ter seus destinos traçados pelo Estado e se levantam em resistência a essas imposições é ter a certeza de que aprender a questionar, aprender a perguntar será o motor para outros possíveis estares no mundo.

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1 Mônica Hoff | Notas para a construção de teorias refutáveis, pedagogias sem importância e escolas de garagem ou: um bom nome para o amor | Fábrica de Conocimiento | Escuela de Garaje
2  Bruno Latour | Reagregando o social
3  Luiz Camnitzer | Arte y Pedagogía | http://esferapublica.org/nfblog/arte-y-pedagogia/
4 Sofia Olascoaga | Desaprender, perguntar-se, escutar: uma pedagogia da incerteza? | Dias de Estudo | Incerteza Viva | 32ª Bienal de São Paulo
5 Julián Fuks | A resistência

Fabio Tremonte é artista e educador. A arte possibilita a errância por diversas áreas do conhecimento humano e a livre experimentação. Cozinheiro de manhã, antropólogo de tarde, DJ de noite, e assim por diante. Percorrendo trajetos diversos, mantém alguns projetos de longa duração: Escola da Floresta, Deriva culinária e valderramas_project. Atualmente, dedica-se a escrever projetos em portunhol.